Cemitério remonta história de bairro caiçara em São Sebastião

Cemitério remonta história de bairro caiçara em São Sebastião

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Localizado no Portal da Olaria, o lugar está interditado há vários anos e gera polêmica entre especialistas

Fachada discreta do extinto Cemitério Municipal do Portal da Olaria. (Fotos: Bruno Almeida)

Quem passa pelo bairro Portal da Olaria, na região central de São Sebastião, dificilmente percebe a existência desse discreto cemitério. Com menos de 100 metros quadrados, o Cemitério Municipal do Portal da Olaria possui cerca de 50 túmulos, muitos deles sem qualquer tipo de identificação. As duas árvores dentro do local, com raízes enormes, já não respeitam a última morada dos que um dia residiram nos tradicionais bairros caiçaras próximos dali.

No século passado, era comum enterrar as pessoas próximas da praia em cidades litorâneas.

Membros das famílias que fundaram o bairro sempre disputaram o direito de serem enterradas no pequeno e de aparência humilde cemitério. O lugar pertencia ao Convento Nossa Senhora do Amparo, no bairro vizinho de São Francisco, um dos principais núcleos da cultura caiçara sebastianense. 

Convento Nossa Senhora do Amparo, no bairro São Francisco. (Foto: Acervo FormArte)

De acordo com um livreto encontrado no Arquivo Histórico do Convento “Crônicas do Venerando Convento de N. S. do Amparo (1938-1982)”, em 1908, o vigário Gastão de Moraes construiu um cemitério no terreno ao lado direito do convento, cercado com muro de pedra. Esse cemitério foi invadido e hoje existem várias casas no local.

Em maio de 1944, o convento adquiriu um terreno no caminho para o Centro de São Sebastião destinado à instalação de um novo cemitério. Esse terreno foi comprado de Idalina Campos, uma moradora do bairro na época. O convento transferiu a posse do novo cemitério para a Prefeitura Municipal, e em 23 de junho de 1945, os dois primeiros sepultamentos foram feitos. No local, a reportagem do FocaNaWeb tentou visualizar as campas, porém não foi possível em função da falta de identificação.

Túmulo perpétuo da família Kajiya.

Também, no cemitério central, onde funciona a administração, não foram encontrados quaisquer registros. Estima-se que os primeiros a serem sepultados ali sejam integrantes da família Kajiya, uma das fundadoras do bairro, e que possui um túmulo perpétuo localizado bem no centro do cemitério. 

Meio ambiente

O Cemitério Municipal do Portal da Olaria se estabeleceu na década de 1940, em uma faixa de terra muito próxima do mar, quando não havia preocupação com potenciais impactos ambientais causados por esse tipo de construção. Porém, de acordo com o atual secretário adjunto de Meio Ambiente de São Sebastião, Auraci Manzano, já não existe o risco de contaminação do solo, pois “o cemitério foi interditado há vários anos, e não recebe mais nenhum corpo”.

Segundo Manzano, a Prefeitura não vê a necessidade de se fazer estudos para determinar se o solo ou a água naquela região estão ou não contaminados. Além disso, esse tipo de estudo levaria muito tempo e dependeria de uma quantidade de recursos que a Administração não possui.

O cemitério divide o terreno com uma náutica e algumas residências.

Na semana passada, uma baleia que apareceu morta em uma praia de Caraguatatuba foi enterrada ali mesmo. Imagine que uma baleia tem o mesmo peso que 20 ou 30 pessoas juntas, se ela não contamina, uma pessoa enterrada também não”, comparou o secretário.

O ex-secretário de Meio Ambiente do município, mestre em Direito Ambiental, advogado, ambientalista e professor universitário, Eduardo Hipólito do Rego, discorda de Manzano, e argumenta que, para se saber exatamente o grau de contaminação do solo, somente através de sondagens específicas. “Só isso pode dizer o que tem lá embaixo e em que grau”, disse.

As raízes das árvores tomaram conta do solo e derrubaram algumas estruturas.

São coisas bem diferentes: o cemitério faz essa função há 100 anos. A baleia foi enterrada semana passada. Imagine se alguém naquela área, como por exemplo donos de garagens náuticas ou residências, tem um poço artesiano. Que qualidade terá essa água?”, questiona o ex-secretário.

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