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Raissa Carbonari

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Melissa estuda Biologia e considera importante que as pessoas se adaptem com a diversidade.

Melissa Müller durante palestra na Sétima Semana Acadêmica - Fatec (Foto: Fatec de São Sebastião)

Melissa Müller, 45 anos, é mulher, transgênero (indivíduo que possui uma identidade de gênero oposta ao sexo designado no nascimento), casada, professora de Biologia, palestrante, tatuadora e atualmente cursa Licenciatura em Biologia no Cento Universitário Módulo. Sua presença na Universidade é encarada como uma forma de militância, além de caminho para alcançar seus objetivos profissionais. Apesar dos olhares e comentários preconceituosos feitos por alguns estudantes, Melissa relata que foi bem recebida e acolhida pela comunidade acadêmica.

Leia na íntegra a entrevista que Melissa concedeu ao FocaNaWeb:

Quais os conflitos que uma estudante transexual encara na Universidade?
São muitos. Conflitos pessoal e do convívio social eu tenho vários, mesmo porque uma parte das pessoas ainda acredita que uma trans não deveria frequentar uma faculdade. Eu percebo no olhar e nem sempre isso é fácil.

Por que você acha que as pessoas ainda pensam de forma tão arcaica?
Educação. Criança não tem preconceito, são os pais e colegas que impõem a eles.

Você estuda Licenciatura em Biologia. Em que semestre está?
Sexto semestre.

Por que escolheu esse curso?
Biologia é a base das ciências e estudar essa ciência reforça meu ateísmo. Agora, ser professora é uma descoberta relativamente recente, veio com as palestras.

Por que escolheu ser professora?
Com as palestras, percebi que tinha uma didática natural. Uma facilidade em criar as aulas e ser compreendida. Mas também acho importante a minha presença nas escolas como forma de mudanças social, mostrando para os alunos que a sociedade está mudando e eles têm que se adaptar com a diversidade.

Como professora, de que forma os alunos lhe vêem?
Nunca tive problemas pois sempre cobro respeito. Porém, no começo, sempre tem algum estranhamento e piadinha… O pior lugar é na sala dos professores.

Por que você acredita que o pior lugar é a sala dos professores?
Há muito preconceito entre os professores do Ensino Médio. Vou dar um exemplo… Um certo professor de Biologia disse à coordenadora da escola: “Qual banheiro ELE vai usar? Ele tem pinto!”

Como você lida com esse tipo de comportamento de seus colegas de trabalho?
Tento não ligar para o comportamento dos colegas professores. A questão é que o problema é deles, precisam se tratar e poucas pessoas têm a coragem de falar na minha cara. Eu só fico sabendo pelos outros.

Como foi a sua chegada à Universidade e como está sendo atualmente?
Minha chegada na faculdade foi sem problema e hoje percebo que conquistei um grande respeito dos colegas e professores.

Seus direitos existem na Universidade?
Sim, fui muito bem recebida no Módulo… Ao contrário da FATEC, onde estudei por dois anos Gestão Empresarial. Tive problemas com o uso do banheiro. Na faculdade é bem tranquilo. É lógico que no começo é meio estranho, mas com o tempo tudo fica bem. Eu uso o banheiro feminino e nunca tive problemas. Tirando alguns olhares estranhos e comentários velados, sou muito bem recebida e acolhida.

Quais os seus projetos futuros?
Na faculdade, eu pretendo fazer um diretório de minorias para discutir exatamente o direito de todas as pessoas de frequentar uma universidade.

Você também é palestrante. Quais os assuntos que você aborda?

Diversidade humana, sexo seguro, gravidez na adolescência e ateísmo… Agora, estou estudando para fazer uma palestra sobre Astronomia.

Quando irá ocorrer a palestra de Astronomia?
Vou fazer palestras dias 8 ou 9 de maio, na escola Thomaz (E.E. Thomaz Ribeiro de Lima), e dia 15 na Fass, em São Sebastião.

Faz quanto tempo que você é palestrante?
Sete anos. No começo, usava as palestras para realizar o desejo de me vestir como mulher e ver a reação das pessoas. Ia de menino, me montava no local e realizava as palestras. Percebi que se você fala com convicção e argumentos as pessoas te respeitam.

Você acha que se vestir de mulher para fazer as palestras te induziu a se tornar trans?
De maneira alguma isso me ajudou a induzir… Desde pequena já sabia, mas também sabia que era proibido para mim.

Há quanto tempo você é trans?
Faz 7 anos que comecei a minha transição.

Você é casada com uma mulher. Há quanto tempo vocês estão juntas?
20 anos

Como foi para sua mulher toda essa transição?
Quando conheci a Carmen, ainda menino, foi meio esquisito, confesso. E ela sempre gostou de mim. Minha transição não foi de uma hora para outra. Foi gradual.

Você também é tatuadora. Acha que é restrita a vida profissional de uma trans?Dificuldades em encontrar um emprego etc.
Sim, ainda é bem restrito, mas como tatuadora não tenho grandes problemas.

Em que tipo de área a maior concentração de mulheres trans de Caraguatatuba está atuando?
Em Caraguá, a maioria das trans trabalha na prostituição.

Atualmente, nós temos na mídia alguns ícones do grupo LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transexuais), como por exemplo Pablo Vittar, que é Drag Queen, e Mandy Candy, que é trans. Você acha que a sociedade brasileira está aceitando melhor a diversidade de gêneros?
Sim, já está mudando… Mas temos muita coisa para se acertar. Talvez em algumas gerações as pessoas não irão ligar para gênero e orientação sexual.

O que você diria para conscientizar as pessoas?
Informação, não julguem pela aparência!

 

DADOS
O Brasil é o país em que mais se acessa pornografia trans e ao mesmo tempo é o que mais mata transexuais, bissexuais e homossexuais. A expectativa de vida dessas pessoas é de 35 anos. O país esta à frente do México com 42% das 295 ocorrências de assassinatos de pessoas trans registradas em 2015. No México, houve 52 casos registrados e no Brasil ultrapassa-se o número de 140 homicídios.

Há 37 anos, vêm se realizando estatísticas feitas pelo Grupo Gay da Bahia (GGB), mais antiga associação de defesa dos homossexuais e transexuais do Brasil, em relação aos assassinatos da comunidade LGBT. 2016 foi o ano com o maior número de mortes registrado – 347 homicídios.

A comunidade transexual é a que sofre mais violência no País de acordo com dados da ONG TGEU (Transgender Europe).

Cerca de 1,6 mil pessoas foram mortas no Brasil por razões homofóbicas, segundo o jornal norte-americano, New York Times.
De acordo com o extinto Ministério das Mulheres, da Igualdade Racial e dos Direitos Humanos, das denúncias feitas pelo Disque Denúncias (Disque 100), 51,68% foram na sua maioria contra travestis, 36,77% contra gays e 9,78% contra lésbicas.

Dados da Associação Nacional de Travestis e Transexuais do Brasil (Antra) indicam que 90% das mulheres trans acabam se prostituindo devido ao preconceito que a sociedade tem perante elas.

Segundo o GGB, a cada 25h uma pessoa do grupo LGBT é morta no Brasil.

 

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